Aproveitando os feriados da semana passada, decidimos ir até Espanha juntar-nos a uns amigos (Rober e Fran) que se encontram a elaborar o Atlas de Quirópteros do Parque Natural das Fragas do Eume, depois ter termos capturado algumas exemplares, os 3 emissores de rádio tracking disponíveis foram colocados em três espécies diferentes (Plecotus auritus, Myotismystacinus e Myotis daubentonii).Durante o dia percorremos os vales e as serras do Sudeste do Parque, na tentativa de descobrir as colónias de criação destas espécies visto que todos os indivíduos marcados eram fêmeas e estavam prenhes, durante a noite o tracking teve como objectivo a identificação dos locais utilizados por estes indivíduos. Como estávamos na Galiza, não deixámos passar a oportunidade de ir dar uma espreitadela as “nostras hermanas” Gralhas-de-bico-vermelho, deste modo rumamos até à praia de Laxe (Província da Corunha), na qual observamos uma Pyrrhocorax, daqui fomos em direcção à lagoa de Traba, onde deparámos com uma serie de gralhas que voavam junto à costa, num vaivém constante.Na tentativa de perceber o que se passava, fomos a pé costa fora até a um local de falésias onde avistámos com um casal e uma cria (com coloração de bico amarelo e patas rosáceas) de Pyrrhocorax pyrrhocorax, que se encontrava junto ao seu local de criação, uma gruta natural, resultado da erosão das águas do mar Atlântico. Fotos de Paulo Travassos, Paulo Barros, João Gaiola e Hélia Gonçalves
Após o casal “do lameiro” (assim denominado pelos mais chegados JJ) ter arranjado o ninho, a fêmea começou a sua postura que decorreu durante 6 dias (29 de Abril até 4 de Maio), 18 dias após, os pintos começaram a nascer e á data deste poste este casal tem no seu ninho 4 crias com aproximadamente 6-7 dias. Já o casal vizinho mais afastado “cerdedo”, que tinha 4 crias, neste momento tem apenas 3 (visto que uma delas morreu há cerca de uma semana e foi colocada pelos progenitores a uns 10 metros do ninho) com aproximadamente 25-26 dias. Se tivermos em conta que ainda existem casais a incubar (e.g. casal do “corte do caminho”), verificamos que pese embora a população do Barroso seja relativamente pequena, não existe uma sincronização reprodutiva, pelo contrário verificamos uma grande amplitude de reprodução que representa mais ou menos um mês de diferença entre os primeiros nascimento e os últimos.
Sabe-se que a mortalidade de juvenis desta espécie é bastante elevada, por exemplo na Grã-Bretanha 85% dos juvenis morrem no 1º ano e 80% dos restantes morrem no segundo ano de vida (Bullock et al, 1983), ou na Ilha de Bardsey onde 77,6% morrem 1º ano e no 2º ano de vida morrem 46,7% dos que restaram do 1º ano (Bignal et al, 1987). Será que este números se confirma em Portugal?
Mais um mês e mais uma visita pela Serra do Barroso, que este mês incluiu a monitorização do efectivo reprodutor desta espécie, durante a qual foram confirmados alguns casais reprodutores (que se encontravam a incubar).
Depois de se ouvir um breve chamamento no ar (do macho de um dos casais reprodutores), a fêmea deixou o ninho e o abrigo para se juntar ao seu parceiro a cerca de 500 metros do local de nidificação no alto de um afloramento rochoso, imediatamente após uma troca de “mimos” o macho regurgitou para que a fêmea se pudesse alimentar, tendo em conta que a descendência estava á espera e não podiam arrefecer, este ritual foi breve demorando apenas 12 minutos.
Contudo, o objectivo deste “post” não é falar sobre a reprodução ou rituais reprodutivos da Gralha-de-bico-vermelho, mas sim, para relembrar a importância do pastoreio e toda a sua gestão associada (incluindo as queimadas), na conservação do habitat da Gralhas-de-bico-vermelho, e em particular as zonas de alimentação. Esta importância até é reflectida no material de construção dos seus ninhos.
Após a parada nupcial e a cópula que ocorrem no início de Março, a construção ou arranjo do ninho contempla o transporte de materiais que é frequentemente observado desde Março até ao momento em que a fêmea põe os ovos e começa a incubação. A reprodução destas espécies ocorre normalmente em meados de Abril, contudo a reprodução precoce ou tardia é muito frequente nesta espécie. A incubação dura 17 a 21 dias, e é assegurada exclusivamente pela fêmea. Após uma breve incursão do macho ao local de nidificação, o casal sai alguns segundos depois para a fêmea ser alimentada pelo macho a poucos metros do local de nidificação e num período de tempo muito curto. As crias são nidícolas, apresentam-se com penugem e pele rosada ou alaranjada. O crescimento das crias é partilhado pelos progenitores que dura em média quarenta dias, estando aptos a voar em meados de Junho. Os jovens voadores deixam o ninho simultaneamente e após ± 63 dias desde a postura, contudo diferenças de 1 ou 2 dias são frequentes. Nos primeiros dias, após deixarem o ninho, os juvenis são alimentados pelos progenitores junto do local de nidificação. Após este período as jovens gralhas passam a acompanhar os progenitores para junto de outros grupos familiares, formandos bandos de algumas dezenas. A emancipação dos juvenis ocorre normalmente dois meses depois de realizarem os primeiros voos, contudo na falta de área e disponibilidade alimentar, podem permanecer junto dos progenitores até ao final do Inverno. A Pyrrhocorax pyrrhocorax atinge a sua maturidade sexual aos 2-3 anos de idade, e durante a sua vida reprodutora apresenta uma taxa de reprodução média de 1,9 a 2,7 juvenis. No entanto, face a uma série de factores (idade, disponibilidade alimentar e anos de ocupação do local de nidificação) uma percentagem elevada de casais reprodutores (cerca de 50%) não produz juvenis.
Fotos tiradas este ano na serra de Aires e Candeeiros e gentilmente cedidas pelo Francisco Barros
Ainda há pouco tempo, estava eu e o Paulo Travassos (em representação da equipa do LEA) a falar com o nosso amigo José Conde, sobre o facto de as Gralhas-de-bico-vermelho não serem observadas já há algum tempo em locais onde era normal e frequente a sua presença, e discutíamos sobre a experiência adquirida nos últimos anos na monitorização e acompanhamento desta espécie no Noroeste de Portugal. Durante a reflexão sobre estes factos, referíamos que a sua ausência podia dever-se apenas a uma alteração relacionada com: o clima, o uso do espaço (e. g. habitat, alimento, perturbação) e que poderia estar associado à alteração simultânea da envolvente ao dormitório. Pelo que, o mais certo seria voltar a ver as nossas amigas daqui a uns tempos nos locais antes referenciados se as condições de alimento e abrigo obedecerem aos requisitos ecológicos reconhecidos pela espécie.
Esta conversa, que nos conduziu a algumas suposições, estava ainda longe dos resultados das contagens do final do mês de Dezembro de 2008. Contudo, com os resultados da última monitorização dos núcleos do Barroso e do Alvão, o que seriam apenas suposições passaram a ser factos reais. Após 14 meses de ausência, centenas de Km percorridos e inúmeras horas de espera junto aos dormitórios, algumas delas debaixo de condições adversas, as filhas pródigas do Alvão voltaram.
De acordo com os nossos registos, o núcleo de Gralha-de-bico-vermelho existente na área do Parque Natural do Alvão tem sido monitorizado sistematicamente desde de Janeiro de 2006, com saídas quinzenais até Setembro de 2008 e mensais desde então. A observação de indivíduos desta espécie foi registada desde Janeiro de 2006 até Outubro de 2007, última data de observação de Gralhas-de-bico-vermelho no Alvão. Desde então, e até Dezembro de 2008, as nossas amigas deixaram de frequentar e dormitar no PNAlvão. A sua ausência foi confirmada pelas 22 saídas de campo efectuadas ao Alvão para monitorizar os dormitórios e os locais habituais de alimentação. Durante os 14 meses de ausência de observações é de notar que uma das aves que tinha sido anilhada no Alvão em 2006 foi observada no Gerês numa das saídas de campo efectuada a esta zona (ver post: K 2156: O Contacto!).
O ano de 2008 está a finalizar e as contribuições para este projecto foram inúmeras e fizeram-se chegar de Norte a Sul de Portugal, deste modo com a chegada de um novo ano não poderíamos deixar passar este acontecimento sem agradecer a todos aqueles directamente contribuíram no trabalho de campo, com informações e no crescimento deste projecto. Deste modo o projecto Bico-vermelho expressa aqui o seu agradecimento ao Amadeu Rodrigues, Anabela Paula, António Ferreira, Carla Gomes, Cármen Silva, Diogo Carvalho, Emanuel Ribeiro, Fernando Queirós, Francisco Barros, Hélia Gonçalves, Jacinto Diamantino, Joana Correia, João Cabral, João Gaiola, José Conde, José Paulo, Luís Braz, Maria de Jesus, Marco Fachada, Mário Santos, Pedro Moreira, Pedro Portela, Pedro Rocha, Regina Santos, Rita Bastos, Rui Gonçalves, Samuel da Costa, Sérgio Ribeiro, Vítor Casalinho e Xosé Ramón, esperando que o ano novo que se aproxima seja cheio de boas observações.
Obrigado a Todos
P.S. Tendo em conta que foram tantas as pessoas que contribuíram para este Projecto se por acaso esquecemos de mencionar alguém, pedimos as nossas mais sinceras desculpas.
No mês de Outubro as contagens realizadas em simultâneo no noroeste (áreas do PN Alvão e Serra do Barroso) e sudoeste (PNSACV) de Portugal, revelaram a existência de um total de 99 Gralhas-de-bico-vermelho.
Estas contagens decorreram como resultado da reunião entre a equipa do Projecto Bico-vermelho e o PNSACV onde se discutiu os moldes da parceria, as metodologias a utilizar e se definiu a periodicidade mensal para a realização dos censos de Gralha-de-bico-vermelho nas Serras do Alvão, Barroso e no Sudoeste Algarvio e Costa Vicentina.
Deste modo, as contagens no Alvão e Barroso realizadas no mês de Outubro revelaram um total de 22 Pyrrhocorax pyrrhocorax, distribuídas por um total de cinco abrigos, que na sua maioria são ocupados por apenas um casal. No entanto, as aves que compõem este núcleo encontram-se durante algum tempo junto do dormitório principal para se alimentarem e socializarem, antes de se distribuírem pelos diferentes locais de dormida já perto da hora do pôr-do-sol.
As contagens realizadas pela equipa do PNSACV e em especial pelos nossos amigos Pedro Portela e Viictor Casalinho para mesmo mês, tal como havia sido acordado, revelaram num primeiro instante, a chegada de apenas 2 aves da espécie P. pyrrhocorax, no dormitório a Oeste de Sagres no entanto após a sua recolha logo se lhes seguiram, vindas de Norte, mais 42 aves. Além destas, num dormitório mais a Leste de sagres as contagens confirmaram a utilização de um segundo dormitório por mais 33 aves da mesma espécie.
O número de Gralhas-de-bico-vermelho registado, após a época de nidificação, tem vindo a aumentar gradualmente nos locais de contagem. Os resultados, até agora compilados, encontram-se dentro do esperado, e estão de acordo com as observações realizadas em anos anteriores, isto é: regista-se uma diminuição do número de aves (dispersão) na época de nidificação e a concentração gradual de aves a partir do período estival atingindo o número máximo de aves no pico do Inverno. Deste modo, teremos de aguardar até Dezembro/Janeiro, para obter um número máximo de Gralhas-de-bico-vermelho nestas áreas e confirmar se houve acréscimo populacional nas áreas monitorizadas.
No âmbito do Projecto Bico-vermelho, a equipa está a desenvolver esforços para que a monitorização e contagem de Pyrrhocorax pyrrhocorax seja estendida a todas as áreas de Portugal Continental onde a espécie ocorre, de forma a que num futuro próximo a monitorização nacional da Gralha-de-bico-vermelho seja uma realidade.