Foto de Jan Buys (Esquerda José Nascimento, direita Jan Piet Bekker)
“A lua eleva-se no horizonte gelado da Serra do Alvão. Um lobo aponta o focinho ao astro. E outro. E mais outro... A alcateia inteira uiva incessantemente, anunciando a despedida daquele que, durante anos e anos, foi seu companheiro e acérrimo defensor. Num dia solarengo centenas de insectos povoam os prados de montanha que ladeiam os rios e ribeiros serranos. Entre eles, o mais importante é um bicho pequeno, frágil, de um inigualável azul eléctrico, quatro asas oferecidas ao vento que passa, tromba metida no néctar das Ericas: é a Maculinea alcon, a borboleta mais ameaçada de Portugal. No próximo Verão estes bichos irão procurar-te avidamente por entre milhares de flores, linhas de água puríssima e rochas aquecidas pelo sol escaldante. No lugar onde te encontrares velarás pelos teus queridos lobos, pelas espécies em perigo e pela tua saudosa família e amigos” (Ernertino Maravalhas).
Não podia deixar de passar esta data sem homenagear a pessoa que me ensinou a olhar a natureza da maneira com a vejo.
A distribuição da gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) em Portugal é bastante fragmentada e resume-se basicamente a 6 núcleos populacionais mais ou menos estáveis, Sagres, Serra de Aires, Serra da Estrela, Douro Internacional/Superior, Alvão/Barroso e Gêres, havendo ainda observações pontuais em outros locais como na Serra da Cabreira, Mértola ou na Zambujeira do Mar.
Provavelmente um dos maiores núcleos, espacial e numericamente será o do Douro Internacional/Superior, contudo a informação sobre desta espécie nesta zona é bastante pontual e dispersa. Do nosso conhecimento e das informações que nos tem chegado foi possível confirmar 16 das 38 quadrículas (5X5 km) de possível ocorrência, além das observações feita no Douro Interncional/Superior, foi ainda confirmada a presença desta espécie no Sítio de Importância Comunitária (SIC) Rio Sabor e Maçãs.
Aproveito este post para deixar uma palavra de agradecimento, atodos aqueles que nos tem ajudado através do envio de observações realizadas de Norte a Sul de Portugal, a todo muito obrigado.
Na Europa, a maior parte dos estudos feitos sobre a caracterização dos habitats utilizados pelas Gralhas-de-bico-vermelho para se alimentarem, demonstram que as zonas de pastagens assim como certos habitats naturais, como por exemplo arrelvados (litorais e/ou de montanha) ou os sistemas dunares, são de elevada importância.
A utilização das zonas de alimentação por parte desta espécie, resulta basicamente de uma selecção em função da estrutura da vegetação, onde a altura da vegetação pode interferir com a técnica de caça e das espécies presas presentes.
Para quantificar a importância do habitat de alimentação, nomeadamente em períodos cruciais como é o da reprodução, um estudo realizado na ilha de Ouessant entre 1998 e 2003, revelou que nos períodos de reprodução as Gralhas-de-bico-vermelho preferem zonas onde a vegetação não ultrapassa os 5 cm de altura, visto que 88% das observações foram feitas neste tipo de vegetação, muito embora este, represente apenas 8% da ocupação do solo, o que demonstra a importância deste tipo de habitat para esta espécie.
Durante a época de reprodução, afastar-se do local de nidificação para se alimentar implica custos em termos energéticos e de tempo, os quais podem ser preponderantes para a taxa de sobrevivência da sua prole, visto que quanto mais longos são os trajectos, mais tempo é gasto nos deslocamentos, tempo que é amputado ao tempo efectivo de alimentação. Da mesma forma, quanto maior for o percurso entre o local de alimentação e o de nidificação, maior será a probabilidade de atravessarem territórios e serem atacados por congéneres, embora as gralhas sejam sociais durante todo o ano, tornam-se agressivas no período de reprodução e especialmente entre aves reprodutoras. Também a taxa de predação de crias aumenta em função de maiores distâncias entre o local de nidificação e o local de alimentação, visto existir uma menor eficácia na vigilância do ninho. Assim a distância entre os ninhos e as zonas de alimentação são um compromisso entre custos (tempo, energéticos e predação) e ganhos (recursos alimentares), de acordo com os estudos realizados a maioria dos casais reprodutores utilizam áreas de alimentação entre os 200 metros e 3 km de distância.
Distância dos principais locais de alimentação (0,5 e 2,2 km) na época de reprodução de um dos ninhos monitorizados pela equipa.
Bibliografia consultada:
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Blanco, G., Tella, J.L. & Torre, I. 1998. Traditional farming and key foraging habitats for chough Pyrrhocorax pyrrhocorax conservation in a Spanish pseudo steppe landscape. Journal of Applied Ecology 35: 232-239.
Faringha, J.C. 1991. Medidas urgentes para a conservaçào da Gralda de bico vermelho Pyrrhocorax pyrrhocorax em Portugal . Estudos de biologia e conservaçao da Natureza. 2. SNPRCN, Lisboa.
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Whithead, S., Johnstone, I. and Wilson, J.D. 2005. Choughs Pyrrhocorax pyrrhocorax breeding in Wales select foraging habitat at different spatial scales. Bird Study,52,193-203.
Kerbiriou, K. 2006. Impact des changements d'usagesur la viabilité d'une population menacée dans un espace multi-protégé : le Crave à bec rouge (Pyrrhocorax pyrrhocorax)